“Quantas mortes, quantas tragédias em família, o governo já não causou. Com a incompetência, com a falta de humanidade… Quantas pessoas morreram de frustração, de desgosto, longe do pai, longe da mãe, dentro de cadeia… por culpa da incompetência desses aí! Entendeu? Que fala na televisão. Fala bonito. Come bem. Forte, gordo. Viaja bastante. Tenta chamar os gringo aqui pra dentro, enquanto os próprios brasileiros tão aí, ó, jogados no mundão. Do jeito que o mundão vier. Sem nenhum plano traçado, sem trajetória nenhuma. Vivendo a vida. Só”
(Mano Brown)
http://br.youtube.com/watch?v=e3gjUnMp91Q
Guilherme Balza
Na semana passada uma notícia deixou minha namorada bastante abalada: uma amiga dos tempos em que ela fazia balé, na adolescência, se suicidou. Ela, que tinha cerca de 25 anos, se enforcou bem no dia do chá de bebê da irmã.
Segundo minha namorada, ela era uma pessoa especial, que a inspirava muito. Extremamente bela, talentosa, grande bailarina, criativa, alegre, agregadora, simpática… Ela também era bastante rica. Ninguém entendeu o porquê de ela ter se matado. Ou pelo menos aquelas pessoas que não a conheciam profundamente. Minha namorada, por exemplo, há anos que não a via.
Desta triste história tirei duas conclusões. A primeira é que não conhecemos a maioria das pessoas que estão ao nosso redor, para não dizer todas elas. A segunda é que cada um faz o que bem quiser de sua vida e não cabe a nós julgarmos nossos pares.
Se a garota se matou é porque não queria mais continuar aqui. Não podemos dizer que ela foi fraca, que ela desistiu, essas coisas. Ela não queria mais viver, não via mais sentido na vida e tomou a decisão de se matar.
É triste para os que ficam. Muito triste. Fica a sensação de “uma vida que poderia ter sido e não foi”. Mas a vida era dela. E a morte foi o destino que ela escolheu.
“É jogar na mão de Deus?”
Na outra ponta do tecido social está o caso da sobrinha da faxineira de onde eu trabalho. Negra, uns 40 anos, mineira tímida, moradora da periferia da zona sul (Jardim São Luiz), testemunha de Jeová daquelas que tiram o sábado para passar de casa em casa pregando a sua revolução. Seu maior sonho é andar de moto a 150km/h na Marginal Pinheiros. Um dia desses, ao chegar no escritório, ela lamentou:
– Ontem tirei o dia pra fazer uma coisa, mas não consegui – disse ela num tom estranho, como se a tarefa que ela não realizou fosse das mais corriqueiras.
– E o que você não conseguiu fazer – retruquei, um pouco surpreso, já que ela não é muito de se abrir.
– Ontem fui a um abrigo tentar levar a “menina que eu tô cuidando”.
(A partir daqui os questionamentos são meus e de uma amiga do trabalho, que também estava na conversa)
– Por quê?
– Ah… ela só apronta. Só pensa em namorar, em ficar transando…
– Quantos anos ela tem?
– Ela só tem dez.
Perplexos, retrucamos:
– Mas onde você pegou ela?
– Ela é minha sobrinha.
– E a mãe dela?
– Tá presa, aquela vadia.
– Entendi…
– A menina foi abusada sexualmente quando tinha seis anos por um amigo da mãe dela.
Silêncio.
Ela retoma:
– E agora ela dá muito trabalho. Fica na rua, só pensa em transar. Eu fico o dia todo fora e não consigo tomar conta. Ela fica se insinunado para o meu filho, de 15 anos. Ontem eu tava decidida a levar ela para o abrigo, mas não consegui. Fiquei com dó. Ela escreveu uma carta dizendo que não queria voltar para o abrigo de jeito nenhum. Então eu desisti.
Fui incisivo na resposta, com o cuidado para não julgá-la de forma moralista, condenatória, como a própria julgara a sobrinha.
– Você não pode levar ela para o abrigo de jeito nenhum. Ela só tem a você. O único jeito de ela ter uma vida é se você apoiá-la. Se ela for para o abrigo a vida dela pode acabar de vez.
– É. Inclusive ela também foi abusada sexualmente na primeira vez que foi para o abrigo. Lá é uma zona. Menino e menina tudo misturado. Ninguém cuida deles…
Reforcei meu pedido.
– Não pensa mais em levar ela para esse lugar. Cuida dela, procura ajuda…
– Eu já procurei… Ela chegou a freqüentar o psicólogo há pouco tempo atrás. Minha mãe que levava. Só que a gente não tava tendo resultado. Então minha mãe não quis levar mais… Eu sei que levaria muito tempo pra ela começar a mudar, mas…
– Demora mesmo. É um processo lento. Pra ela sexualidade é algo banal, sem sentido. E vocês não podem de jeito nenhum julgá-la. E também não podem desistir. Essa menina só tem a vocês.
– É… Vamos ver. O Hospital das Clínicas está muito interessado no caso dela, mas eles só atendem de segunda a sexta. Não tem como eu levá-la. E minha mãe, que poderia levar, não quer. Vou procurar um lugar que atenda ela de fim de semana.
A conversa terminou aí. Decidi que também procuraria um lugar que atendesse a menina. O complicado é que seria necessário um acompanhamento de toda a família. Todos que vivem com a garota teriam que ser educados para lidar com a situação.
Não sei que futuro terá essa garota. Além de todos os terríveis traumas que passou, ela tem que enfrentar as dificuldades que derivam da sua condição social, suportar o peso da moral religiosa e machista ao seu redor, reconstruir sua sexualidade e encontrar pessoas que a amem. E isso com apenas 10 anos.
Vale a pena tentar?
“É preciso viver apesar de”.
