Guilherme Balza
… E por falar em putas, drogas e underground, lembro-me do santista Plínio Marcos (1935–1999), sem dúvida o dramaturgo da Cidade Sonegada e dos sonegados.
Ninguém na história do teatro brasileiro retratou tanto o submundo da metrópole, com seus ratos, bandidos, putas, cafetões, travestis, miseráveis, viciados… Em plena ditadura, escreveu peças ácidas, que questionavam a moral, a ordem social e política.
Ele foi o primeiro a chocar a elite ao mostrar a aspereza da marginália, dos becos, guetos, lixões, favelas… No último domingo, finalmente consegui assistir à uma peça de sua autoria: Navalha na Carne (1967).
A trama trata dos conflitos de Neusa Suely (Paula Cohen), uma prostituta esgotada, exausta de seu trabalho, com o cafetão Vado (Gustavo Machado), que vive às suas custas, humilhando-a e violentando-a de todas as formas possíveis. No meio da história aparece o homossexual Veludo (Gero Camilo) para tumultuar ainda mais a vida (vida?) do casal.
Fui ao Sesc Avenida Paulista acreditando que veria uma grande apresentação. As críticas foram favoráveis e Gero Camilo é um dos melhores atores do nosso teatro (Aldeotas, dele e com ele, foi uma das peças que mais me marcou).
Frustrei-me, porém. A proposta da montagem, dirigida por Pedro Granato, era contemporanizar o texto de Plínio. Aconteceu, na minha humilde opinião, exatamente ao contrário. Fiquei com a sensação de que a encenação ficou presa à década de 60.
Evidente que o tema permanece atual. O submundo continua aí. A massa de excluídos e marginalizados só aumentou. Prostitutas, cafetões e homossexuais continuam se fudendo – não literalmente – na vida.
Mas, de quando Plínio começou a escrever suas peças até os dias atuais, muita coisa mudou na forma como a sociedade encara o mundo marginal – que, desde então, tornou-se o cenário preferido para grande parte diretores, cineastas, dramaturgos, escritores e poetas.
O submundo não choca mais como antes – o que pode ser bom, como pode ser ruim. Penso que caberia ao grupo trabalhar o tema de modo a sensibilizar os espectadores e a comunicar-se com o público (não de forma catártica).
Mas, acredito que na montagem definitivamente isto não ocorreu (as “pescadas” de algumas pessoas e o pouco envolvimento do público reforçam minha opinião). Presos a um realismo/naturalismo excessivo, como se estivessem em um filme, os personagens estavam extremamente estereotipados e lineares, apesar da clara tentativa dos atores de aprofundá-los.
Embora inconstantes, as ações dos três foram previsíveis praticamente o tempo todo. Pouco foram exploradas as contradições de cada personagem e quando apareceram soaram como falsas ou inverossímeis.
A genialidade de Gero, que desta vez apareceu em raros momentos, não conseguiu “salvar” a montagem. No final da apresentação, contudo, o público aplaudiu de pé, entusiasticamente. Mas isto não significa muito: na sociedade do espetáculo o aplauso se tornou banal… está reduzido a uma mera formalidade.
“O Teatro foi a forma que encontrei para dar um testemunho a respeito do tempo mau que vivemos. Falo de gente que conheci e conheço, gente que está amesquinhada por gente; gente que vai se perdendo. Meu teatro é só isso. Apresento os fatos como um repórter. Conheço os fatos e não sei a solução. O recado que tenho para dar é só este: há gente por aí se danando. Meu ideal é conseguir fazer as platéias pensarem na solução para o problema dessa gente, problema que deve ser o de todos nós. Não faço Teatro para o povo, mas o faço em favor do povo. Teatro para incomodar os que estão sossegados. Só para isso”.

Muito grande este post! Nem li…
lembra-se que os leitores na internet são uns preguiçosos?
Pronto, já lí.
Eu estava lendo um livro sobre 1968 e como este nome Plínio Marcos foi uma referência nessa época tão conturbada da história brasileira. Sem dúvida ele participou, teve um importante papel no reconhecimento da periferia pela população das áreas centrais da cidade. O reconhecimento da cultura, das artes, dos problemas e até mesmo das belezas que ainda conseguem criar as pessoas que precisam se preocupar a cada dia com o que vai ter para colocar na mesa quando a hora da janta chegar.
O problema é que, 40 anos depois de Plínio a grande mídia começou a perceber quão lucrativa pode ser essa periferia. As favelas e periferias agora já viraram lugar comum nas novelas da Globo, mas é claro, favelas de ricos…
Plinio Marcos, sem duvida é meu dramaturgo preferido… já li todas suas obras e participei de duas montagens de dois perdidos numa noite suja….. uma vez fiz Paco e outra o Tonho….
estou mudando para são paulo em março e gostaria muito de encontrar um diretor para continuar meu processo pliniano….
meu e-mail é emmanuelmayerms@yahoo.com.br.
obrigado