Guilherme Balza
Sob o comando de Lênin, Trotski e demais bolchevistas eclodiu, em 1917, a Revolução Russa, a maior revolução proletária da história. No mesmo ano, foi promulgada a Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos, a primeira da história que atribuiu aos direitos trabalhistas a qualidade de direitos fundamentais e que garantia liberdades ao indivíduo e direitos políticos ao cidadão.
São Paulo também fervia em 17. Em julho, a cidade literalmente parou com a Primeira Greve Geral, influenciada, sobretudo, pelos ideais do anarcossindicalismo e do socialismo utópico.
Dois meses antes, não se sabe se prevendo o furor que se insaturaria no seio da classe trabalhadora ou se simplesmente por ser dotado de boas intenções – como deixa a entender a história oficialesca –, o industrial carioca Jorge Street, apelidado de “empresário socialista” e “poeta da indústria”, inaugurava no bairro do Belém, zona leste da Capital, a Vila Maria Zélia, a primeira vila operária do Brasil, idealizada para abrigar seus mais de dois mil funcionários da Companhia Nacional de Tecidos de Juta.
O nome era uma homenagem a sua filha, falecida dois anos antes.
Proletários domésticos
A vila foi projetada pelo arquiteto Pedaurriex, baseada nas cidades européias do início do século XX. Além das 198 moradias, que possuíam de 75 a 110m², havia a capela, os jardins, a escola para meninos e para meninas, a creche, o coreto, os armazéns, o ambulatório médico, o dentista, o açougue, o salão de festas, ou seja, uma infra-estrutura completa para atender as necessidades vitais das famílias assentadas.
O trabalhador-morador ali domesticado, então, não precisaria pegar o bonde na Celso Garcia (avenida que unia e une o Centro com as freguesias do Tatuapé, Penha e São Miguel e que era um trecho da ligação com o Rio de Janeiro, capital da República).
Em 1924, porém, o sonho burguês (e proletário?) acabou. A fábrica de Street e a vila foram vendidas à família Scarpa (sim, a mesma do Conde Chiquinho Scarpa) que, por sua vez, em 28 as revendeu ao grupo Guinle (sim, o mesmo do Jorginho “Profissão Playboy” Guinle).
Alguns anos depois, as dívidas fiscais acumularam-se e o IAPI (o INSS da época) assumiu o controle da vila e da indústria. Em 1936, o local foi transformado em presídio político pelo Estado Novo. Os cerca de 700 presos ali detidos, entre eles Caio Prado Jr. e Paulo Emílio Salles Gomes, transformaram a detenção em Universidade Maria Zélia.
A vila em 2003: clima de interior, “garantido” pela presença de muros – Créditos: Divulgação
Três anos depois os moradores voltaram à vila e até 1968 permaneceram ali pagando aluguel ao IAPI. No ano seguinte, puderam se tornar proprietários das residências por meio do sistema BNH (Banco Nacional de Habitação). Em 1979, a vila deixou de ser totalmente particular para se tornar logradouro público.
Quinze anos atrás, órgãos de preservação de nível estadual e municipal (Conpresp e Condephaat) tombaram o traçado urbano, o conjunto de casas e a vegetação arbórea da vila, que deveria ser restaurada pela Prefeitura, que até hoje não o fez.
Teatro, amor, nova geração, velhos problemas
Cheguei, junto com a minha namorada, na Vila Maria Zélia não como operário ou preso político. Fomos simplesmente assistir a uma peça chamada “Arrufos”, apresentada no antigo armazém geral da Vila, escrita, concebida, dirigida e encenada coletivamente pelo Grupo XIX de Teatro.
Ao lado do Folias d’Arte, Teatro da Vertigem, Grupo Tapa, Parlapatões, Companhia do Latão, Companhia do Feijão, entre outras dezenas ou até centenas de coletivos, o XIX contribui para que o teatro em São Paulo viva possivelmente o momento artisticamente mais forte em toda sua história.
Uma geração que trata a pesquisa, a experimentação e o risco não como meras escolhas, mas sim como matérias fundamentais para a criação artística. Uma geração que transforma praças, cadeias, hospitais, passagens subterrâneas e rios poluídos em “salas de teatro” e enfrenta, com ousadia e grandeza, a brutal mercantilização da arte, o empresariado ganancioso, as incoerências da Lei Rouanet e a ditadura envergonhada imposta pelo “padrão Globo de qualidade”.
Enfim… “Arrufos” utiliza-se do tema do amor para refletir sobre as transformações sofridas pela sociedade nos séculos XVIII, XIX e XX. Recomendo a todos: texto inteligente, atores perfeitamente entrosados entre si e com a platéia, direção ousada, idéias novas e criativas em cena. Uma montagem que incomoda o ego, nos faz pensar e acreditar – ou não – na força do amor, que, diferente dos trabalhadores da vila, é “uma ave que não se pode domesticar”. O assunto que quero tratar, porém, não é o amor, nem o teatro, e sim a Vila Maria Zélia.
Na Zélia; na ZL
Ao chegar na vila, a primeira sensação que tive foi o estranhamento. O ambiente não só é completamente diferente de seu entorno – cheio de cortiços deteriorados, ruas escuras, indústrias abandonadas e lixo espalhado – como também do resto de São Paulo, onde 70% das pessoas moram mal e 30% se escondem das que moram mal.
Logo que passamos pela portaria o estranhamento deu lugar ao encantamento. A Igreja, bem em frente, é simples, pequena e singela. As pequenas casas de inspiração européia, abrasileiradas no acabamento das fechadas, convivem em perfeita harmonia. Não há disparidades. Nada é ofensivo. Não há miséria e também não há ostentação.
No fundo do vilarejo, um pequeno clube, com churrasqueira, quadra, campo de futebol e mesinhas para jogos de cartas ou dominó. O clima interiorano é reforçado pelas hortaliças cultivadas em um canteiro e pelos gatos perambulando nas ruelas.
Mesmo há poucos metros da Marginal Tietê, o silêncio reina. Só é atrapalhado pelos gritos de crianças brincando e latidos de cachorros (isso de noite, porque de dia deve prevalecer o barulho das indústrias ao redor, como a Goodyear, por exemplo, que se instalou onde era a fábrica de Street).
A sensação é de estar numa verdadeira cidade cenográfica. Inclusive a vila costumeiramente é utilizada para este fim; comerciais, novelas e longas-metragens, como O Corinthiano (1966), com Mazzaropi, foram rodadados no local.
Casa que serviu de cenário de “O Corinthiano”, com Mazzaropi; uma das poucas da vila com a fachada original preservada – Créditos: Flávio Taveira
Bastaram cinco minutos caminhando para vir um inevitável “queria morar aqui” na minha cabeça e de minha namorada. Cessamos a contemplação, entretanto, para irmos assistir à peça.
Contradições
Após as duas horas de apresentação, saímos do armazém geral e decidimos dar uma volta com o carro para procurar alguma casa à venda. Encontramos somente uma que definitivamente não era das mais atraentes. Não importa. Morar na Vila Maria Zélia é o que há! Anoto o telefone da imobiliária.
Na volta, enquanto percorro os quilômetros que separam o Belém do Jabaquara, na zona sul, onde moro, reflito sobre o que significaria viver na Maria Zélia. O lugar realmente é incrível e seria maravilhoso ter uma casinha lá.
Além do mais, é o sonho de todo esquerdista moderno ter como moradia um lugar que no passado fora uma vila operária, um presídio político, um antro da intelectualidade rebelde, uma representação concreta da falência das famílias burguesas e que é, nos dias atuais, um espaço tomado pelas artes. Um ambiente que, na sua essência e na sua mais pura natureza, se opõe completamente aos desvarios da metrópole exterior.
Ali parece que o caos encontrou a sua ordem. Mas qual ordem? A ordem garantida e preservada pela presença de uma portaria com vigilância, de um muro que envolve a vila e de uma cerca de arame semelhante às dos presídios norte-americanos? Sim, empolgado em descrever o lugar esqueci-me de dizer que a vila é fechada por muros e cercas elétricas. Ato falho?
“Ah, mas o acesso é livre!”. Livre, aberto, não é o mesmo que público, no sentido social, não legal da palavra. A Vila Maria Zélia não é pública porque pouco dialoga com o externo. Poucas pessoas sabem da sua existência e aproveitam-se do seu espaço. O teatro, o cinema e as artes em geral, diante disso, podem constituir-se como meios eficazes para ressignificar os espaços e devolvê-los o seu caráter público (acredito que essa seja a aposta do Grupo XIX).
Mais contradições
Estava prestes a concluir que morar na Vila Maria Zélia significaria fechar-se, , elitizar-se, isolar-se, excluir-se, domesticar-se, ou seja, repetir a mesma lógica dos milionários que se fecham em condomínios ou em edge cities do Terceiro Mundo (Alphaville, Granja Vianna, etc.).
Significaria, acima de tudo, esconder-se dos problemas urbanos que também, de alguma forma, são de minha responsabilidade. Para completar, representaria uma fuga do meu atual bairro – habitado, sobretudo, por pessoas simples – pelo qual nada fiz.
De repente minhas reflexões, que haviam subitamente se radicalizado, deram uma pausa e eu lembrei de uma conversa que tive com uma colega.
Na ocasião, contava-lhe sobre uma visita que fiz a um prédio na Santa Ifigênia (Centrão), no qual um apartamento estava sendo vendido a um bom preço. Disse a ela que brochei completamente e abortei minha missão quando na frente do edifício vi um garoto fumando crack.
Contei também que sentia uma certa culpa por não ter coragem de morar em um lugar onde jovens se drogam na minha frente, ou seja, onde a realidade é desnuda por completo. Ela, que curiosamente era meio anarquista, meio comunista, respondeu:
– Cara, nosso lar tem que ser um lugar de sossego, de paz. Depois de um dia inteiro vendo injustiça, violência, passando estresse, temos que chegar em casa e relaxar. Não dá pra viver em um lugar deprê – ponderou.

O antigo armázem hoje abriga as peças do Grupo XIX – Crédito: Caio Esteves
Esta lembrança me fez ponderar sobre o que seria morar na Vila Maria Zélia. Pensei que vivendo ali poderia contribuir de forma mais eficaz para a vila se abrir para o resto da cidade, para que ela se tornasse um espaço verdadeiramente público. Pensei também que morar ali não poderia ser exatamente uma fuga, já que o restante do dia inevitavelmente eu teria que enfrentar as agruras da metrópole.
Ele é quem manda
Essa reviravolta no meu pensamento, porém, não me fez chegar a uma conclusão. Permaneci com incertezas na cabeça. No dia seguinte, contudo, resolvi ligar para a imobiliária da casa que estava à venda na vila:
– Gostaria de informações sobre um imóvel na Vila Maria Zélia. É a única casa à venda. Você pode me ajudar? – perguntei.
– Então, a casa é pequena. Tem cerca de 60m² apenas e precisa de reparos – respondeu uma mulher com uma voz típica de corretora: forte, agressiva, mas não maleducada, pelo menos não intencionalmente
– Ela está saindo por R$ 133 mil. E logo mais estarão à venda outras duas, com o valor mais alto – completou.
Caro demais para os meus bolsos. Toda a reflexão do dia anterior tornara-se inútil, insignificante. Meu desejo de pequeno-burguês ou de esquerdista-moderno de morar na Vila Maria Zélia morrera ali, diante da resposta da corretora. A brutalidade da voz da mulher simbolizou, naquele momento, a força do dinheiro… do Capital. Eu já deveria saber que é Ele, afinal, que determina tudo por estas bandas.



Legal o post, Balza! Na correria, não consegui ler até o fim. Não dava pra ser mais resumido?
Muito bom o texto. Ficou cansativo só por ler na tela do computador mais ele tá interessante, não sei se precisa dividir em posts.
Mas eu não vejo sentido quando você acha que o industriário não tinha boas intenções. A união dos opoerários num mesmo local, só poderim significar em união deles e como modo de eles perceberem seus problemas e sua vida em comum. Eles tenderiam a agir mais em conjunto.
Não tem como isso ser uma concessão para os operários se desorganizarem, serem gratos ao patrão, ou qualquer outra coisa. Nem tudo tem interesses escondidos.
Parabéns Balza, tenho que admitir que seu tema foi bem escolhido!
Alguns comentários seus, de cunho particular, serviram de inspiração para um trabalho sobre a Vila Maria Zélia.
Parabéns, ótimo texto.
Vc estuda oq ::::
Carro novo, conhecer o mundo, escalar montanha, falar com os oprimidos, ter poder de denunciar, morar na Vila Zélia.
Pequeno-burguês? Burguês? Moleque USPiloide?
As vezes eu penso que o caos de Sao Paulo e as incoerencias desse nosso mundao ocidental contribuem para nos afastar de um ponto de referencia. Uma referencia que nos diga se temos as respostas ou as perguntas corretas, se temos a atitude nao-imbecil que nos afaste do marasmo.
Qual o problema de querer ter 133 mil? Tem um problema?
Valeu pela idéia Balza. Também curti o texto, o ritmo, as informaçoes.
abraços!!!
Então Manoela, fico feliz por meu texto ter te ajudado… Depois, se rolar, manda o link ou o arquivo com o seu trabalho.
Eu estudo jornalismo, estou no quarto ano… e você?
Abraços!
Bom Dia,
Gostei muito do seu texto, gostaria que você acessasse o site que eu fiz que conta a história da Vila Maria Zélia.
Grato,
Flávio
VALEUUUUU CARA!
MTO BEM FEITO SEU TEXTO,ME AJUDOU MUITO A FAZER UM TRABALHO!E NÃO DESISTA DE COMPRAR UMA CASA NA VILA NAO CARA!ALGUMA HORA VAI APARECER UMA OPORTUNIDADE MELHOR!
Balza, olá!
Seu texto deu gosto de ler e voltar em uma época boa de minha infância!
Quando adolecente eu frequentava esse bairro todo final de semana, saia de minha casa (bairro_IV centenário_ZL), com meus pais e era festa quando iriamos para casa de minha madrinha na Maria Zélia.
Hoje tenho recordações ótimas que a 1 mês atras tive a oportunidade de voltar a esse local, me causou um pouco de tristeza na entrada do bairro por haver alguns galpões abandonados, mas não tive tempo suficiente para dar aquela volta…foram 2 minutos aproximadamente, onde só deu para virar no promeiro quarteirão.
Nunca desista de seus impulsos de momentos, pois são deles que buscamos realizar sonhos que poucos conquistam por barreiras ou por desilusões de algum comentário infeliz.
Abraço e boa sorte.
Bom Dia!
Também gostei do texto, e parte da sua experiência também vivi na procura de casa na Vila Maria Zélia, além do preço ser salgado tem o problema do Tombamento da Vila….. se comprar uma casa não podemos reformá-la………
fiquei frustrada!!!
um abraço!