
Gabriela Portilho
Poucas cidades surpreendem tanto quanto São Paulo.
Ao andar a pé pelas ruas, tem-se muitas vezes a impressão de estar diante de um quadro em que os detalhes vão se revelando diante de um olhar mais atento.E até mesmo a calçada mais pisada vai revelando uma cidade que respira. Uma loja que nunca tínhamos reparado, uma portinha onde mora um tanto de gente, uma passagem, um beco, uma entrada… peculiaridades que só aparecem quando paramos para observar.
Na esquina da Consolação com a Paulista o cardápio de filmes expostos no cine HSBC rouba a cena. E eu podia jurar que o entre a esquina e o cinema não havia nada. Mas em um dos passeios mais atentos eis que reparo na vitrine que antecede o cinema. Alguns livros antigos, recortes de revista na parede e em cima a placa: PASSAGEM SUBTERRÂNEA.
Fui tomada pela curiosidade ao mesmo tempo que meu inconsciente cultural avisava dos perigos que o subsolo podia guardar. (de Irréversible às Tartarugas Ninjas o subsolo nunca foi de lugar de boas surpresas)
Eis que um belo blues ecoa debaixo da terra e me faz descer as escadas.
Nada de escuridão ou obscurantismo.
Debaixo da terra, um corredor branco e bem organizado, dividido ao meio por uma estante de livros usados e raros. Nas laterais, vitrines protegiam os quadros e esculturas em exposição. Construída durante os anos 70, a passagem subterrânea da Consolação já teve cara de pesadelo underground e foi reconhecida como um dos melhores locais para urinar na região da Paulista ganhando apelidos como “piscinão de xixi” e “pedágio de ladrão”.
Há 3 anos foi revitalizada e reaberta durante a Virada Cultural de 2005. No lugar das sujeiras e infiltrações, uma bela galeria de livros usados é organizada pelos vendedores ambulantes que antigamente ocupavam a região da Augusta e Consolação. Hoje são eles que cuidam da segurança e limpeza do local que é administrado pela subprefeitura da Sé.
Mas esse é apenas um exemplo de boas utilizações do subsolo paulistano. Quem anda de metrô deve conhecer bem essa história.
Se São Paulo existe 1000 metros para cima, existe no mesmo tanto para baixo…
É praticamente uma cidade embaixo da outra, com mais de 7000 pessoas trabalhando lá embaixo para que as coisas funcionem bem aqui em cima.
Aliás, é tendência mundial nas grandes cidades utilizar os subsolos para abrigar serviços de infra-estrutura e supervalorizar os espaços acima da terra com áreas verdes. No Japão, por exemplo, a Biblioteca Nacional de Tóquio já coloca o conceito em prática e guarda mais de 30 metros de livros em seu subsolo, enquanto aumentam o número de praças e parques na cidade.
Pra conferir os bons proveitos que a cidade fez de seu subterrâneo vale a pena atravessar a avenida da Consolação por baixo e conhecer alguns destes lugares:
Lapeju - Um bar de funk, soul e black. Tão underground que fica num porão. Lá, você mesmo serve sua bebida e não existem comidas no cardápio. Fica na Rua Frei Caneca, 892, do lado d´A Lôca.
Syndikat - Pra quem quer curtir jazz debaixo da terra. O Syndikat é um bar aconchegante, com mesinhas, almofadas no chão and all that jazz. Fica na Moacir Piza, 64, entre a Haddock Lobo e a Bela Cintra, pertinho do Metrô Consolação.
Museu Anchieta – O subsolo guarda segredos da São Paulo que já esteve aqui antes da nossa. Embaixo do Páteo do Colégio, uma cripta reserva imagens antigas e objetos sacros do século XVI.
Os subterrâneos que mexem com nosso subsolo:
Livros e filmes que falam sobre os universos undergrounds (e que valem a pena!)
Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski – Livro dos mais doloridos e ressentidos de Dostoiévski. O personagem-narrador investe contra tudo, mas sobretudo sobre o solo de sua própria consciência. Pra se ter uma idéia, Nietszche pirou lendo esse livro e muitos vêem nele uma prefiguração das idéias do inconsciente de Freud. Livro agressivo e doloroso mas que não nos deixa negar que “há prazer até mesmo numa dor de dentes”.
Alice no País das Maravilhas – Clássico de Lewis Carroll que adotou como primeiro nome “Alice in Underland”. Não é pra menos. É no universo underground de Alice que todas as convenções sociais são subvertidas dando espaço à universo ilógico e non sense. Para isso, basta seguir o coelho branco. Aliás, as mesmas referências a esse subterrâneo estão no filme Matrix. (mas também… em Matrix, o que não é referência, né?)
Irreversível - Do diretor Gaspar Noé. Esse é daqueles que fazem a gente ter medo de qualquer subsolo. Sem muita genialiade é estrelado por Monica Bellucci e segue a linha dos filmes com narrativas em ordem não-cronológica, a la “Amnesia”.
Ah! E e claro… As Taratarugas Ninjas e as aulas do Mestre Splinter.
Aliás, se estivermos falando do subsolo novaiorquino pode se esperar de tudo: jacarés gigantes, invasão de ratazanas… e porque não? Tartarugas!
Créditos das fotos: LennyWillians

Hey! E os links que você estava pensando em colocar? Fiquei curioso… uma fotinho da região ou daquela passagem subterrânea seria bem legal também!
Texto meio grande… não sei se leria se não fosse da sala de vocês…
Fantástico seu texto, Gabi! Muito bem escrito, leve, informativo e gostoso de ler. Não são apenas elogios. O texto, de fato, tem esses atributos.
Adorei Gabi! Ótima descoberta e apuração!